sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

OS MELHORES FILMES DE 2015 –ACCPA




OS MELHORES FILMES DE 2015 –ACCPA
Luzia Miranda Álvares

Em mais uma edição da celebração de um ano de atividades agregando a festa natalina, os membros da ACCPA – Associação de Críticos de Cinema do Pará – apresentaram, no dia 23/12, suas listas individuais dos filmes que consideraram os melhores neste 2015 e, do registro de 12 listas foram selecionados os melhores. Ressalve-se que houve dois empates e, dessa forma, a lista contém 11 filmes. Os membros da ACCPA que participaram da escolha foram: Pedro Veriano, Marco Antonio Moreira, Luzia Álvares, Arnaldo Prado Jr., Dedé Mesquita, Fernando Segtovich, José Otávio Pinto, José Augusto Pacheco, Ismaelino Pinto, Francisco Cardoso, Elias Gonçalves. Maiolino Miranda enviou sua lista.

1º Birdman ou A Inesperada Virtude da Ignorância (EUA, 2015) de Alejandro Gonzáles Iñarritu – 94 pts;

2º O Sal da Terra (Brasil/Alemanha, 2014) de Win Wenders e Juliano Ribeiro Salgado – 62 pts.

3ª Leviatã (Rússia, 2014), de Andrey Zvyagintsev - 57 pts.

4º Vicio Inerente” de Paul Thomas Anderson – 42 pts.

5º Relatos Selvagens (Argentina, Espanha, 2014) de Damián Szifron – 38 pts.
Mad Max -Estrada da Fúria (Mad Max Fury Road/Austrália, EUA, 2015) de George Miller – 38 pts.

7ª Dois Dias e uma Noite de Jean Pierre e Luc Dardenne – 37 pts.

8º Acima das Nuvens. (França/EUA,2014) de Olivier Assayas – 29 pts.

9ª Que Horas Ela Volta? (Brasil, 2015) de Anna Muyalert – 26pts.

10º Homem Irracional (Irrational Man, EUA, 2015), de Woody Allen – 24 pts
DivertidaMente (Inside Out, EUA) de Pete Docter – 24 pts.

Outras categorias: ·
Diretor : de Alejandro Gonzáles Iñarritu em “Birdman” ·
Ator: Michael Keaton em “Birdman” ·
Atriz: Regina Casé em “Que Horas Ela Volta?”
Ator Coadjuvante: Edward Norton em “Birdman”
Atriz Coadjuvante: Kristen Stewart em “Acima das Nuvens”,de Olivier Assayas ·
Montagem: Margaret Sixel em “Mad Max - Estrada da Fúria”
Cenografia: Shira Hockmman e Jacinta Leong em “Mad Max—Estrada da Fúria”
Fotografia: Emmanuel Lubezki em “Birdman”
Trilha Sonora: Joe Hisaishi em “O Conto da Princesa Kaguya”
Roteiro Original: Alejandro Gonzáles Iñarritu e outros em “ Birdman”; · e Oleg Neguin e Andrey Zvyagintsev em “Leviatã”
Roteiro Adaptado: Anthony McCarten em “A Teoria de Tudo”; e Paul Thomas Anderson em “Vício Inerente”
Figurino: Mark Bridges em “Vício Inerente”
Efeitos Especiais: Vincent Abbot e outros em “Star Wars- O Despertar da Força”
Animação : Misato Aida e equipe em “O Conto da Princesa Kaguya”
Documentário Sal da Terra
Reprise: “O Sétimo Selo”, de Ingmar Bergman e “A Doce Vida” de Federico Fellini.

domingo, 6 de dezembro de 2015

PROGRAMAÇÃO CINECLUBE DA ACCPA - DEZEMBRO/2015




Cineclube da ACCPA - Programação Dezembro/2015

Cineclube Alexandrino Moreira (Casa das Artes) - 19 h*
Dia 07 - "Manhattan"(1979) de Woody Allen (Homenagem aos 80 anos do diretor)
Dia 21 - "Interlúdio"(Notorius) (1946) de Alfred Hitchcock - 18 h* (Homenagem - Ingrid Bergman)



Cine Líbero Luxardo - Sessão Cult - 14:30 h*
Dia 05 - "Fanny e Alexander"(1982) de Ingmar Bergman



Cine Olympia - Sessão Especial - 16 h
Dia 20 - "A Felicidade não se Compra"(1946) de Frank Capra

Cine FIBRA - 19 h
Dia 19 - "A Felicidade não se Compra" de Frank Capra

Entrada franca
*Debate após a exibição

"FANNY E ALEXANDER" DE INGMAR BERGMAN

“Fanny e Alexander”, de Ingmar Bergman
Augusto Pachêco

É dezembro de 1907. Como num conto barroco de Natal, “Fanny e Alexander”, de Ingmar Bergman, é prova concreta de que o cinema, enquanto obra de arte atemporal, é capaz de avalizar a existência de outros mundos, novos modos de entender o homem e Deus. O filme será exibido neste sábado, às 14h30, na Sessão Cult promovida pela ACCPA no Cine Libero Luxardo. A entrada é franca, com debate após a exibição. Realizado em 1982, (ou seja, depois do perturbador “Da Vida de Marionetes”, e antes de “Depois do Ensaio” e “Saraband”), “Fanny e Alexander” concentra as obsessões estéticas e temáticas do cineasta, como o uso do vermelho que estabelece desde o início o jogo lúdico que está por vir, o fascínio pelo teatro de marionetes e a ignorância nada confortável de não saber ao certo o que há depois da vida, depois da morte.
 Na encenação que convoca patrões e empregados em alegre coreografia que celebra o nascimento de Cristo, uma galeria de personagens com nuances já exploradas em outros filmes do cineasta, aqui representados pelos filhos e esposas dos Ekdhal: a paixão pelo teatro por Oscar e Emily, as dívidas e empréstimos eternos de Carl e sua esposa alemã subjugada, e o conveniente triângulo formado Gustav, Alma e Mag.
 O fantasma que toca piano e que parecia ser uma espécie de narrador do conto do terror que se instala depois de 1h de filme, é indiferente aos sangramentos dos castigos do bispo, este então representante de Deus na Terra, com irmãs e serviçais de rostos duros. Para Bergman, só o poder da imaginação para enfrentar a prisão do bispo Eduard, a severidade que oprime em nome da religião, e tortura psicológica e física como relação de poder. Para Alexander, deixar a infância é deixar de acreditar em anjos, fadas, contos góticos e brinquedos óticos que reproduzem imagens.
 “Fanny e Alexander” pode ser filme sobre a perda da inocência, mas também sobre o poder da magia, do ilusionismo, do amor outonal para toda vida em Isak e Helena. Uma declaração de amor ao teatro através da janela do cinema, como na leitura de “O Sonho”, de August Strindberg, em que sonho e realidade se confundem.

 *jornalista, mestre em Cinema e Literatura e membro da ACCPA – Associação de Críticos de Cinema do Pará.

domingo, 15 de novembro de 2015

NUMA ESCOLA EM HAVANA



A primeira sequencia do filme de Ernesto Serrano Daranas repercute uma visão simbólica do que será dado a conhecer sobre a situação diária de muitas crianças que transitam nas escolas entre a violência, a pobreza e, desta, a ausência de valores: uma pomba que espera levantar voo sendo dificultada a fazê-lo nesse ato. “Numa Escola em Havana” (Conducta, 2014, Cuba, 100min.) expõe a dura realidade de crianças, especialmente na idade de Armando Valdes Freire, 11 anos, que atuou brilhantemente no filme ao lado de outros meninos e meninas e que personaliza Chala, filho de mãe (Yuliet Cruz) viciada em drogas e ajudando nas despesas de casa vendendo pombos e criando cães de briga para uma prática clandestina de enfrentamento em rinhas. Rebelde com causa o menino é simpático à velha mestra Carmela (Alina Rodriguez) sua professora, tendo atitudes de convivência mais humana. À beira de aposentadoria e vitima de um enfarte, ela é quem luta para manter o menino na escola, pois a direção prefere manda-lo para um colégio de conduta, ou seja, o equivalente, no Brasil a um reformatório. Dentre os amigos de Chala está a garota Yeni (Amaly Junco) também com sérios problemas familiares. O filme não pretende avaliar a educação em específico, com o eixo determinante do enfoque considerando dois tipos de tratamento pela escola, a formal e a dinâmica processual quando está em jogo a relevância dos comportamentos levando em conta a vivência total do aluno e não atitudes esporádicas. É de reconhecimento mundial a qualidade do ensino em Cuba, sendo considerado pela ONU como o único país latino-americano a cumprir a meta do Programa Educação Para Todos (EPT). Compara-se, ainda, ao sistema educacional de países como a Finlândia e a França onde a profissão de educador é tratada com grande atenção.
O filme valoriza-se por dar atenção aos problemas sociais e emblemas burocráticos que as crianças cubanas enfrentam, observando-se, também, entre as brasileiras. O enfoque do diretor e roteirista Ernesto Daranas é primoroso não só na abordagem de um fato social dramático como na construção cinematográfica, numa fotografia expressiva de Alejandro Perez (com 10 títulos no currículo) que usa primordialmente a luz ambiente (filmagem durante o dia), fato que procede a uma profundidade de campo a realçar os espaços filmados (nada de construção em set) contrapondo o comportamento de um vasto elenco, especialmente a atuação dos pequenos alunos de Carmela, meninos e meninas com uma expressividade a sugerir a impressão de um documentário. O filme não quer ser um quadro politico e não sugeriu censura do governo Fidel Castro. A preocupação intrínseca é sobre a origem dos problemas sociais acarretando evidencias de marginalização e violência se algumas atitudes formais vierem a se constituir em exclusão como é o caso de Chala que embora expresse agressividade revidando agressões que ele e seus colegas sofrem dos outros é o responsável pela sua família reduzida à mãe que precisa de atenção e de quem coloque o alimento dentro de casa. Mas esse aspecto só é contornado por Carmela que conhece os meandros da potencialidade escolar e de afetos do garoto e investe nisso para acalmar a burocracia da escola seguidora das frias leis que determinam o formato dos comportamentos. Carmela também conhece o drama de Yeni cujo problema familiar é mais grave porque deveria ser matriculada em uma outra escola haja vista que não pertence ao distrito da que frequenta, mas onde o seu pai arranjou emprego. A velha professora enfrenta o Estado representado pela “especialista municipal” Raquel (Silvia Áquila) que está segura de suas atitudes e convicta de que a solução para os dois casos é formal e não de avaliação social. Dai porque ao repreender a atitude da velha mestra Carmela diz-lhe que ela já está há muito tempo em sala de aula e precisa se aposentar, com a educadora retrucando: “E quem governa esse país, também acha que está há tempo demais?”.
Há momentos em que Daranas sintetiza o drama de seu pequeno personagem. O momento em que ele vê retirarem o seu cão de estimação morto na arena de luta entre cães. O roteiro exige muito do pequeno interprete. Há planos próximos dele contendo as lagrimas ao falar com a professora. Como também na ajuda à colega que ama, e ao amigo cujo pai foi preso por questões políticas. Esta aproximação da câmera se dá, também, sobre Carmela/Alina Rodriguez, exigindo da atriz expressões indicativas de sofrimento físico e moral. O bairro pobre de Havana é percorrido também por essa câmera sem que se abuse da filmagem manual. A moda de usar câmeras leves e exigir com isso a ideia de que se grava a realidade é contida por uma direção que soube o que quis e fez. Nós, de Belém, praticamente desconhecemos o cinema cubano. E somente no circuito alternativo ele tem vez. E olhem que nesse país há uma escola de cinema das mais importantes da América Latina e por que não dizer, também, do plano mundial. Filme imperdível. (Luzia Álvares)

A ESCOLA RUSSA DE CINEMA E A CULTURA DOS NOVOS TEMPOS



É praxe uma crítica desinformada na sociedade ocidental deixar de lado os pontos fundantes do cinema russo, um dos mais importantes e mais antigos da História. É praxe, também, tratar das técnicas da montagem e da teoria estética da linguagem do cinema, reconhecendo a importância de dois cineastas-autores (chamo assim) russos que marcaram a revolução nessa arte, Serguei Eisenstein e Dsiga Vertov responsáveis por inscreverem mudanças nos padrões instituídos pelos demais cinemas já circulando mundialmente e que trouxeram marcantes posições. O estudioso dessa arte não pode restringi-los no processo geral da formação da linguagem tão somente porque incorreria em uma negação do que realmente representou, para a história da formação da cultura política, a presença do cinema de massas que vem ao lado da revolução russa. O cinéfilo e o público em geral (até mesmo para mudar a desinformação) devem saber que após a Revolução de 1917 houve uma preocupação dos líderes revolucionários bolcheviques no poder, como Lênin e seus companheiros, em criar na cultura do status quo, outros meios que trouxessem a revolução das ideias do povo soviético intentando reverter o que até ali estava sendo visto como arte de um modo geral, quando outras cinematografias dominavam a circulação de seus meios culturais. Reformular isso e dar ciência do que estava ocorrendo entre a população explorada foi um dos passos principais para instruir a revolução cultural e escancarar a situação social que empobrecia e explorava economicamente aquele povo.
O cinema estava nesse meio (é necessário conhecer as bases da doutrina marxista para reconhecer a tese e antítese que dariam forma à síntese dessa nova previsão para a cultura e a arte). Dessa forma, Lênin procura reunir um grupo principal de realizadores colocando em suas mãos a invenção de nova maneira de “fazer cinema” criando meios a serem reconhecidos pela população sobre o antes tzarista e o hoje bolchevique, em torno da exploração e a pobreza e a provável mudança de hábitos na economia considerando a necessidade do coletivismo para avançar em novos planejamentos para a agricultura e a vivência digna naquela sociedade. Dessa forma, após a Revolução de Outubro de 1917 há grande incentivo às produções cinematográficas com vistas na propaganda ideológica, valorizando-se e exaltando a força do povo em reerguer-se das trevas czaristas, produções que eram financiadas pelo Estado. É preciso entender que a Rússia com a Primeira Grande Guerra, estava sufocada por uma massa de operários e camponeses sobrevivendo de forma degradante de trabalhos pesados e baixos salários, além de um governo opressivo. Com isso, levantam-se intelectuais e os populares e tomam o poder com a renúncia do czar [cf. primeiro a Revolução de fevereiro – março pelo calendário ocidental que derrubou o governo do czar Nicolau II e intentou estabelecer a república liberal; e a Revolução de Outubro – novembro -1917, com o partido bolchevique derrubando o Governo Provisório e instalando o governo socialista soviético]. Assim, ao reorganizar-se a cultura, o cinema é pensado por Lênin como um importante instrumento para levar a essa população o reconhecimento de suas mazelas e o que poderia usufruir com a mudança radical da economia. Cria o Comissariado de Educação que para ele, de todas as artes o cinema é a mais importante naquele momento para refletir a atualidade soviética, e chama alguns diretores para realizar filmes de propaganda ou, no meu entender, panfletos visuais, que possam mostrar com maior ênfase aquela realidade. Kuleshov (considerado o primeiro teórico a buscar uma estética da montagem, tendo ensinado na primeira escola de cinema de Moscou) e seus pupilos Einsenstein, Parajanov, Kalotosov, Pudovikine, Alesandrov começam a trabalhar a imagem dessa realidade subvertendo a fantasia que circulava com os filmes norte-americanos e dai, organizam o novo cinema soviético.
Neste extenso preâmbulo, meu interesse é levar ao público espectador que está participando da MOSTRA MOSFILME 90 ANOS uma perspectiva divorciada de questões ideológicas que julgam esses primeiros filmes dessa escola como um tipo de propaganda comunista, sem peso de uma inovadora narrativa formal que engatinha e será celebrada com outros elementos de uma linguagem que marcará a história do cinema. O filme “O Velho e o Novo” (URSS, 1929, 120 min., documentário) tem a direção de Sergei Eisenstein e Grigori Aleksandrov. Esta obra confronta o novo espírito do campesinato na recente URSS e as novidades que se revelam para a modificação dos antigos padrões da agricultura. No enfoque vê-se a instalação de uma desnatadeira e um trator que procuram estabelecer as novas ideias quebrando o já estabelecido. Diz a Dra. Nanci de Freitas , Doutora em Teatro pelo Programa de Pós-graduação em Artes Cênicas, e Professora do Departamento de Linguagens Artísticas do Instituto de Artes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), no excelente texto O velho e o novo: tensão entre experimentação artística no cinema de Eisenstein e as demandas ideológicas soviéticas: “A linha geral/O velho e o novo”, de 1929, trata das condições de trabalho numa fazenda comunitária, na União Soviética, em sua luta para a modernização dos meios de produção. A construção da sintaxe dramatúrgica do filme revela a tensão entre a experimentação estética de Eisenstein, com a montagem fragmentária, no auge do “cinema intelectual”, e a abordagem de conteúdos ideológicos, em composição baseada no princípio unificador e na totalidade dos significados da obra, sob a égide da censura do regime stalinista.” (p. 26. http://www.artcultura.inhis.ufu.br/PDF22/freitas.pdf ) (...) Não é uma obra que obedece a uma doutrinação externa - também um meio de mostrar uma realidade existente – mas principalmente para criar o olhar do novo num cenário estrutural que procura mudar as relações de poder. E as imagens do filme são contundentes para mostrar, primeiro a miséria, em seguida os aspectos renovadores, depois a burocracia e a crítica aos poucos sendo dispensada para os que não reconhecem o meio de trabalho coletivo. Ainda do texto de Nanci de Freitas este excerto revela o aspecto da trama do filme e a contribuição de Einsestei ao programa da contracultura czarista: “O cineasta produziria, então, o filme A linha geral (em colaboração com Grigori Aleksandrov), apresentando, pela primeira vez, um enredo ficcional, conduzido por uma personagem individualizada. O filme é concebido a partir do olhar e dos sonhos de prosperidade da camponesa Marfa Lapkina, que assume a luta pela organização comunitária do trabalho e pelo acesso aos bens de produção tecnológica.
É significativa a presença de uma mulher à frente dos trabalhos de uma cooperativa agrícola comunista, por representar, dialeticamente, o processo de superação do Estado patriarcal capitalista, apontando para uma forma de organização mais generosa e fraterna, que faz lembrar as antigas gens matriarcais, ligadas aos mitos da fertilidade da terra e da agricultura.” A ênfase na figura feminina, no filme, é simbólica e, aquela altura desenvolve uma assertiva tenaz de fortalecer a relação da mulher-terra, mulher-mudança, mulher-confiança. Os demais filmes dessa excelente Mostra Mosfilme 90 Anos devem ser vistos acompanhando-se não só o contexto histórico, mas o que deixaram de recriações e invenções para a relação entre imagens e ideias da sociedade.(Luzia Álvares).

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

MOSTRA "MOSFILM 90 ANOS" NO CINEMA OLYMPIA



A Mostra “Mosfilm 90 anos” foi inicialmente realizada em novembro de 2014 na Cinemateca Brasileira em São Paulo e finalmente chega a Belém através do cinema Olympia. A mostra traz oito filmes da histórica produtora moscovita, ainda hoje uma das mais ativas da Europa e tem produções de diversas épocas (fases silenciosa e sonora), diferentes estilos e gêneros variados (drama, épico, musical, comédia, documentário), todos assinados por diretores consagrados.
Durante esses 90 anos (1924-2014) foram criados nos estúdios da Mosfilm mais de 2.500 longas metragem de vários cineastas que ajudaram a criar a história do cinema mundial como Sergei Eisenstein, Aleskandr Dovzhenko, VIsevolod Pudovkin, Ivan Pyriev, Grigori Aleksandrov, Mikhail Romm, Gigori Chukhrai, Mikhail Kalatozov, Serguei Bondarchuk, Adrei Tarkovsky, Leonid Gaiday e outros. O Mosfilm ainda hoje é um dos maiores estúdios da Rússia e um dos maiores da Europa, contando com cidades cenográficas e equipamentos de alta tecnologia que lhe permitem realizar o ciclo de produção do cinema em sua totalidade.
Confira a programação completa da mostra que tem entrada franca numa parceria do Cinema Olympia, CPC-UMES, ACCPA(Associação de Críticos de Cinema do Para), UFPA e PROINTER (Pró-reitoria de Relações Internacionais da UFPA)

Dia 12 - 18:30 h
O Velho e o Novo Direção: Sergei Eisenstein/Grigori Aleksandrov O mais aclamado dos cineastas soviéticos toma como pano de fundo a coletivização da agricultura para contar como a chegada de uma desnatadeira e um trator podem modificar antigos e tradicionais padrões de pensamento.

Dia 13 - 18:30 h
Lenin em Outubro Direção: Mikhail Romm Dez anos depois do "Outubro", de Eisenstein, onde o protagonista são as massas trabalhadoras, Romm aceita o desafio de individualizar e dar vida à figura de Lenin.

Dia 14 - 16:00 h
Às Seis da Tarde Depois da Guerra Direção: Ivan Pyryev Musical sobre a saga de dois amantes que, separados pela guerra, prometem reencontrar-se no Dia da Vitória. De 1929 a 1969, Pyriev dirigiu 18 filmes, entre os quais "Tratoristas" (1939) e "Cossacos de Kuban" (1949).

Dia 14 - 18:30 h
"Primavera". Quinta comédia musical estrelada por Liubov Orlova sob a direção de Aleksandrov, cineasta que assina com Eisenstein a direção de "Encouraçado Potemkin" (1925), "Outubro" (1928), "O Velho e o Novo" (1929), "Que Viva México" (1932). A história se passa nos primeiros anos da reconstrução da URSS, após a 2ª Guerra Mundial.

Dia 15 - 16:00 h
“O Retorno de Vassily Bortnikov”(foto). Direção: Vselvolod Pudovkin.Dado como desaparecido na guerra, Vassily Bortnikov regressa ao lar e encontra a mulher casada com outro.
Último filme do lendário diretor dos clássicos "A Mãe" (1926) e "Tempestade Sobre a Ásia" (1928).

Dia 15 - 18:30 h
“O Fascismo de Todos os Dias”.Narrado pelo próprio diretor, que pôs a alma nesse projeto rico em inovações formais, "O Fascismo de Todos os Dias" é, ainda hoje, considerado por muitos como o mais profundo, completo e impactante documentário produzido sobre o tema.

Dia 17 - 17:30 h
“A Mãe”. Direção: Gleb Panfilov .Egresso do VGIK, onde também se formaram Klimov, Tarkovsky, Chukhrai e outros expoentes da sua geração, Panfilov realiza, após Pudovkin (1926), Leonid Lukov (1941) e Mark Donskói (1956), a quarta filmagem do célebre romance de Maksim Gorky.

Dia 18 - 18:30 h
“Tigre Branco”(foto).Direção: Karen Shakhnazarov. O diretor mescla filosofia e mistério nesta batalha fantástica entre o tanquista Naydenov e um “tanque fantasma” alemão, nos dias finais da 2ª Guerra Mundial. Indicado para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (2012), prêmio de Melhor Diretor no 9º Festival de Cinema Fantástico de Porto Alegre.

"A DOCE VIDA": FELLINI E A DESCRENÇA



Roma do final dos anos 50. Numa primeira sequencia “A Doce Vida” capta a estátua de Jesus Cristo suspensa por um helicóptero sobrevoando a cidade de Roma, sendo levada para o Vaticano. Jovens que tomam banho de sol no alto de um prédio acenam para o que veem como um espetáculo fora do comum. Em outra sequencia observa-se uma concorrida apresentação de uma menina que “fala com Nossa Senhora”. Muita gente quer ver de perto a “santinha” como uma nova Bernadette de Soubirous (Lourdes-França). Estes fatos são presenciados por um jornalista que se mostra cada vez mais cético: Marcello Rubini (Marcello Mastroianni). Neste que é seu “alter ego” Federico Fellini representa a sua versão de Roma quando já deixara o jornalismo e se envolvera com o cinema. É o retrato em cinemascope de um desencanto. Não só de uma apreciação de fatos que alimentam a descrença (não só em termos de religião), mas a ideia de que a capital italiana reprisa a sua performance do tempo dos Césares. “A Doce Vida” (La Dolce Vita, Italia, 1960) é um filme capital na filmografia de um dos mais aclamados diretores da cinematografia em qualquer época. Ele deixava a linguagem linear e a compaixão que envolvia suas carismáticas heroínas Gelsomina e Cabíria, como dava uma outra forma aos distantes “vitellonis” que circulavam na noite de Rimini sua terra natal, em “Os Boas-Vidas” (1953). Através de seu Marcello (personagem a interprete) Fellini vê um novo contexto alimentado pelo crescimento da economia e a reconstrução da Itália após o imediato pós-guerra (o conflito terminara em 1945) com os aliados prevendo a formação de um polo eficiente para o combate à ideologia comunista entre os países europeus. Esse foi um momento em que a economia italiana floresceu suscitando um tempo de demandas por maiores benefícios para a população rural – que migrava para a cidade – e a população urbana alimentando-se das melhorias que foram acontecendo no período. Cresce a classe média trazendo a efervescência cultural com evidencia das artes, em especial, o cinema, com a Itália se tornando um polo de circulação de astros e estrelas internacionais. Fellini foi um dos beneficiados, visto que àquela altura já fora agraciado com dois Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (“La Strada”, 1954; e “Noites de Cabíria”, 1957) tendo se tornado, então, um dos nomes de cinema dos mais celebrados. E a pulsão pelo momento que vive fortalece seu interesse em captar o modo como estava vivendo aquele grupo entre os quais se vê incluído. Não sem motivo seu alter-ego é um tipo chamado Marcelo que percorre espaços diversos, convive com figuras de uma sociedade que está com seus valores em decadência. Vive momentos de prazer efêmero, aspirando ser feliz.
O roteiro de “La Dolce Vita”, elaborado pelo próprio Fellini teve o auxilio de Brunelo Rondi, Tullio Pinelli, Ennio Flaiano e, embora sem referência nos créditos, Pier Paolo Pasolini. A estrutura narrativa construída em episódios deixa mais frouxa a composição dos elementos que irão circular em toda a extensão do filme, acronológicos, sem nexo causal, usando Marcelo como narrador/observador participante/corifeu dessa sociedade por onde circula de carro, sendo perseguido por Paparazzo (Walter Santesso), o fotógrafo que o acompanha registrando a presença de celebridades (é o tempo delas) na re-novação de um ambiente preparado para recebe-las. Maddalena(Anouk Aimée) e Emma (Yvonne Forneaux) são as peças-chave de seu envolvimento afetivo. Mas há outras e outros personagens que são introduzidos pelos bastidores, aproveitando-se das entrevistas que coordena entre os quais com pseudo-intelectuais, em busca de definir o que é a felicidade. Da presença da Igreja ao papel do Estado definindo valores e atitudes na sociedade emerge a crítica de Fellini a esse mundo que visita incorporado por Marcello. Há momentos marcantes em “La Dolce Vita”. O banho da estrela norte-americana (a sueca Anita Ekberg) na Fonte de Trevi é um deles. Mas o que me ficou na época em que assisti ao filme pela primeira vez foi a presença de Steiner (Alain Cuny), filosofo que mata a família e se mata demonstrando sua descrença nos valores humanos.
 O filme termina com uma alegórica visão de um pré-final da sociedade com pessoas saídas de uma festa percorrendo a praia e a presença de um estranho peixe (leviatã?). Nesse momento, Marcello vê uma jovem chamando por ele. Mas não a escuta e prossegue andando com os demais festeiros. Sinal de um pessimismo que alguns críticos viram então, na verdade, o endosso de todo o trabalho, um painel de uma cidade e classe social num determinado tempo, de florescimento e de delírios.(Luzia Álvares).

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